domingo, 15 de agosto de 2010

A chave e a porta.

Mas de repente tudo já não cabia mais só dentro dele; precisava de um acontecimento externo que justificasse toda aquela largueza de dentro. A coisa externa não acontecia. E, se acontecia, não justificava. Por que não se render ao avanço natural das coisas, sem procurar definições?
Encarou-o tenso, colocando no olhar o desafio: eu te vejo mais fundo do que você me vê, porque eu te invento nesse olhar, porque você se torna o meu invento, porque depois de olhar muito dentro eu prescindo da imagem e o meu olhar repleto se basta, como se eu fosse cego, mas tivesse guardado todas as imagens: um cego vê mais que um homem comum porque não precisa olhar para fora de si, porque o que ele deseja ver está completamente dentro e é inteiramente seu.
Se meu olhar não te desvenda é porque você me vê mais fundo, mas você não pode ver mais fundo porque o meu fundo está cheio de musgo, porque o meu fundo é verde como um muro antigo, roído como mármore de cemitério, denso como uma floresta onde eu ando lento, as árvores barrando meus passos e a transparência de seus olhos barrando os meus.


C.F.A.
Quando partiu, levava as mãos no bolsa, a cabeça erguida. Não olhava para trás, porque olhar para trás era uma maneira de ficar num pedaço qualquer para partir incompleto, ficando em meio para trás. Não olhava, pois, e pois não ficava. Completo, partiu.

C.F.A.
De repente sinto medo. Um medo antigo, o mesmo que sentia o menino escondido embaixo da escada, esperando castigos. Um medo e um frio que nascem de alguma zona escondida no cérebro, nas lembranças, nas coisas que o tempo escondeu ao avançar, como se recuando súbito pusesse a descoberto todos os cantos invisíveis, todas as teias de aranha recobrindo velhos muros, os mesmos que tantas vezes tentei escalar sem que houvesse nada depois, nenhum caminho, nenhuma casa. Nada.

C.F.A.

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

"Ah, fumarás demais, beberás em excesso, aborrecerás todos os amigos com tuas histórias desesperadas, noites e noites a fio permanecerás insone, a fantasia desenfreada e o sexo em brasa, dormirás dias adentro, noites afora, faltarás ao trabalho, escreverás cartas que não serão nunca enviadas, consultarás búzios, números, cartas e astros, pensarás em fugas e suicídios em cada minuto de cada novo dia, chorarás desamparado atravessando madrugadas em tua cama vazia, não conseguirás sorrir nem caminhar alheio pelas ruas sem descobrires em algum jeito alheio o jeito exato dele, em algum cheiro estranho o cheiro preciso dele.
Que não suspeitará da tua perdição, mergulhado como agora, a teu lado, na contemplação dessa paisagem interna onde não sabes sequer que lugar ocupas, e nem mesmo se estás nela. Na frente do espelho, nessas manhãs maldormidas, acompanharás com a ponta dos dedos o nascimento de novos fios brancos nas tuas têmporas, o percurso áspero e cada vez mais fundo dos negros vales lavrados sob teus olhos profundamente desencantados. Sabes de tudo sobre esse possível amargo futuro, sabes também que já não poderias voltar atrás, que estás inteiramente subjugado e as tuas palavras, sejam quais forem, não serão jamais sábias o suficiente para determinar que essa porta a ser aberta agora, logo após teres dito tudo, te conduza ao céu ou ao inferno. Mas sabes principalmente, com uma certa misericórdia doce por ti, por todos, que tudo passará um dia, quem sabe tão de repente quanto veio, ou lentamente, não importa."

C.F.A.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Apenas uma maçã.

Nascendo nas minhas pupilas, círculos dourados se estendem até o infinito. A maçã ofega em cima da mesa. A primeira percepção é um grito de luz sobre o branco, a presença da maçã, contornos imprecisos contra a janela. Os círculos ampliados concentricamente contêm átomos de poeira em passeio pela manhã. É manhã? Não sei: é silêncio apenas. Fecho os olhos. Somente a memória fala: porque é certo que as pessoas estão sempre crescendo e se modificando, mas estando próximas uma vai adequando o seu crescimento e a sua modificação ao crescimento e à modificação da outra; mas estando distantes, uma cresce e se modifica num sentido e outra noutro completamente diferente, distraídas que ficam da necessidade de continuarem as mesmas uma para a outra. O corpo ao lado, vestido, e o movimento que pressinto de recusa. Mas ela não fala. Apenas olha. As pupilas cheias de pequenos pontos dourados. Pontos de fogo, de ouro, de luz. Pontos de: não.
— Não vou perguntar por que você voltou, acho que nem mesmo você sabe, e se eu perguntasse você se sentiria obrigado a responder, e respondendo daria uma explicação que nem mesmo você sabe qual é. Não há explicação, compreende? Eu também não queria perguntar, pensei que só no silêncio fosse possível construir uma compreensão, mas não é, sei que não é, você também sabe, pelo menos por enquanto, talvez não se tenha ainda atingido o ponto em que um silêncio basta? É preciso encher o vazio de palavras, ainda que seja tudo incompreensão? Só vou perguntar por que você se foi, se sabia que haveria uma distância, e que na distância a gente perde ou esquece tudo aquilo que construiu junto. E esquece sabendo que está esquecendo.
Pede um cigarro, um objeto nas mãos torna mais fácil uma conversa dessas, compreende? A fumaça sobe devagar, já não existem os círculos dourados, agora são apenas cinza — a fumaça. Em torno, nada mudou. Até a água esverdeada do aquário parece a mesma. Espero. O peso na cabeça se dissolve aos poucos em contato com o dia.

— Não quero complicar nada. Nunca quis. Também não queria falar. Mas eu não podia simplesmente receber você com a cara de ontem.
Sentada na poltrona ao lado da janela, uma cara de hoje, o cabelo preso na nuca, o casaco do pijama escondendo as pernas, os pés descalços aparecendo. Movimento o corpo sob o lençol, sinto o contato do pano em toda a pele. Estou nu e ela adivinha o meu pensamento. Sorri:
— Não houve nada. Você não precisa se preocupar pelo que não houve. Você estava bêbado demais para qualquer coisa.
O cigarro, a maçã nas mãos: o tempo colocou na testa uma ruga que antes não havia.
De repente sinto medo. Um medo antigo, o mesmo que sentia o menino escondido embaixo da escada, esperando castigos. Um medo e um frio que nascem de alguma zona escondida no cérebro, nas lembranças, nas coisas que o tempo escondeu ao avançar, como se recuando súbito pusesse a descoberto todos os cantos invisíveis, todas as teias de aranha recobrindo velhos muros, os mesmos que tantas vezes tentei escalar sem que houvesse nada depois, nenhum caminho, nenhuma casa. Nada.

EU — Mas detesto analista amador.
ELA — Campo ou bosque ou deserto, qualquer coisa assim, compreende? O importante é que seja ao ar livre. Colabora, imagina. É só um teste.
EU — Um deserto, então.
ELA — Sem nada?
EU — Nada.
ELA — Mas nem uma palmeira?
EU — Nenhuma.
ELA — Um rio, qualquer coisa?
EU — Nada. Só areia.
ELA — E árvores?
EU — Nada.
ELA — Bichos?
EU — Nada.
ELA — Vento?
EU — Nada.
ELA — Água?
EU — Nada.
ELA — E a chave?
EU — Não encontro a chave.
ELA — E o muro?
EU — Muro tem.
ELA — E como é o muro?
EU — Antigo, feio, todo descascado, tijolos aparecendo, um pouco de limo, enorme.
ELA — Você sobe?
EU — Tento subir. Várias vezes. Mas caio, arranho os pulsos, sai sangue. Dói muito. Sempre tento subir, sempre caio outra vez. Mas sei que um dia eu consigo.
ELA — E depois?
EU — Depois o quê?
ELA — Depois do muro, o que tem?
EU — Nada.
ELA — Nada?
EU — Absolutamente nada.
ELA — E você, o que você faz, no nada?
EU — Não sei, me desintegro, acho.
ELA — E não dói.
EU — Não. Não dói.
(silêncio)
ELA — Você já tentou o suicídio alguma vez?
EU — Três, por quê?
ELA — O muro que você tenta subir. O muro é a morte.
EU — Ah.
(silêncio)
ELA — Você agora vai-me achar piegas, mas deixa eu perguntar.
EU — Pergunte.
ELA — Você não acredita em amor?
EU — Acho que não. Como é que você sabe?
ELA — Não existe água. A água é o amor.
EU — Ah. Que mais?
ELA — Nada.
EU — Nada?
ELA — É. Nada. Você não acredita em nada. Acha tudo estéril. Vazio. Seco. Um deserto. Nem problemas você tem.
EU — Problemas?
ELA — É. Os bichos.
EU — Ah.
ELA — Nem ideais. Com o perdão da palavra.
EU — Ideais?
ELA — É. As árvores.
EU — E daí?
ELA — Daí, nada.
(silêncio)
EU — Pronto: mergulhou no silêncio oceânico.
(silêncio)
ELA — Você não passa dum puto niilista. O diabo é que eu gosto de você paca.

Não mais. Ela apanha o cigarro, joga o toco pela janela aberta. Apanha a maçã.
— Eu ia pintar essa merda. Mas acho que não há mais nada a dizer sobre a droga duma maçã. Nada a fazer, também.
— A não ser comê-la.
— É, comê-la. Mas esta está velha.
— Porque eu, meu filho, eu só tenho fome. E esse jeito instável de pegar uma maçã no escuro — sem que ela caia.
— Que saco, hein? Estava demorando.
— O quê?
— A citação. Quem é?
— Clarice Lispector.
Ela não sorri. Houve um tempo em que tive um rio por dentro, mas acabou secando.

EU — É possível um rio secar completamente?
ELA — Claro que é.
EU — Mas será que ele não enche depois? Nunca mais?
ELA — Alguns sim, outros não.
EU — Mas nunca mais?
ELA — Sei lá, acho que não.
EU — Você tem certeza?
ELA — Certeza eu não tenho. Só estou dizendo que acho. Afinal não sou nenhuma especialista em matéria de rios, secos ou não.
EU — Sabe?
ELA — O quê?
EU — Eu tinha esperança que o rio voltasse a encher um dia.

O dia avança lento. Quem pode deter o avanço do tempo? Alguma coisa vai ser dita ou feita, o tempo prepara meus ouvidos e meu corpo para as palavras ainda em gestação. Levanto as duas mãos, veias estendidas sob a tessitura clara da pele, dedos desertos como se segurassem uma palavra intangível. Anêmona. Varanda. Circunlóquio. Hipérbole. Cantata. Coleóptero. Fazendo um gesto, talvez. Ou falando. Como dói o deserto de dedos desassombrados. Entre eles, a revista, a ilustração: uma orquestra sinfônica. Merda para todas as orquestras sinfônicas. Nos banquinhos, as bundas assentadas, violinos, fagotes. Gozado fagote, não é? Parece um cavalo galopando em cima de nozes, oboés, contrabaixos. E contracimas, não tem, hein?. Sopé. E girândolas. Gôndolas girando? Mas se eu tivesse ficado, teria sido diferente? Melhor interromper o processo em meio: quando se conhece o fim, quando se sabe que doerá muito mais — por que ir em frente? Não há sentido: melhor escapar deixando uma lembrança qualquer, lenço esquecido numa gaveta, camisa jogada na cadeira, uma fotografia — qualquer coisa que depois de muito tempo a gente possa olhar e sorrir, mesmo sem saber por quê. Melhor do que não sobrar nada, e que esse nada seja áspero como um tempo perdido. Não digo. Atrás do aquário, os dois olhos confundidos com os peixes. Será que peixe gosta de maçã? Mas se tivesse ido até o fim, teria voltado? Voltar não será como ir até o fim, não será prolongar o processo em vez de abreviá-lo? Nunca soube a cor exata de seus olhos. Quando os via muito de perto, minha única preocupação era observar o movimento dos pontinhos dourados no fundo das pupilas. Mas em que cor estavam contidos esses pontinhos, boiando em castanho, em azul, em verde, em negro? O cigarro queima os dedos, fumado até o fim. O sol ilumina um remendo na cortina. A mancha encolhe lentamente.

EU — Você gosta de mar?
ELA — Gosto. Parece uma coisa que eu sinto às vezes por dentro e nem sei bem como é. Nem o que é. Acho que se um dia eu me matasse seria no mar. Queria ir entrando na água bem devagarinho, vestida de branco, descalça, cabelos soltos.
EU — Poesia fácil
ELA — Vá à merda.

Atira a maçã para cima, recebe-a de novo, indecisa, num movimento que quase descobre os seios. As pernas compridas, um pouco brancas demais. Os olhos talvez meio estrábicos. Mas a cor? Que cor? O gesto antigo de afastar um fio de cabelo inexistente.
— Vá embora — ela diz.
Visto a roupa devagar. Começo a descer as escadas. Não olho para trás. De que adiantaria olhar? De que adianta não olhar?
Vou desviando das poças sujas da chuva de ontem. O asfalto esburacado. O céu cheio de fumaça. E de repente uma maçã espatifada contra o cimento. A carne madura demais espalhada em torno. Não há nada a dizer sobre ela, não passa de uma maçã morta.

terça-feira, 30 de março de 2010

"Outro dia, fiquei pensando no mundo sem mim.
Há o mundo continuando a fazer o que faz.
E eu não estou lá. Muito estranho. Penso
no caminhão do lixo passando e levando o lixo
e eu não estou lá. Ou o jornal jogado no jardim
e eu não estou lá para pegá-lo. Impossível.
E pior, algum tempo depois de estar morto, vou ser
verdadeiramente descoberto. E todos aqueles
que tinham medo de mim ou me odiavam
vão subitamente me aceitar. Minhas palavras
vão estar em todos os lugares. Vão se formar
clubes e sociedades. Será nojento.
Será feito um filme sobre a minha vida.
Me farão muito mais corajoso e talentoso do que
sou. Muito mais. Será suficiente para fazer
os deuses vomitarem. A raça humana exagera
em tudo: seus heróis, seus inimigos, sua importância."

C. Bukowski.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Desembarque.

Passou o percurso inteiro olhando para ela. Tentou ser discreto. Uma mulher pode ter dúvidas sobre estar sendo admirada ou perseguida. Jurou que ela correspondia. Pensou que, se os dois descessem na mesma estação seria um sinal divino de que deveriam se conhecer. E claro, trepar. E então, quando a voz anunciou “Estação Paraíso”, os dois se levantaram juntos. Juntos mesmo, como não conseguiriam se tivessem combinado. Juntos de forma que arrancariam aplausos dos demais passageiros, se eles não estivessem ocupados demais fazendo nada. Ela imaginou que filme ele gostaria de ver. Ele reparou nas pernas dela.

Caminharam para a mesma porta e, nessa hora, os olhares se acharam. E um sorriso escapou. O dela mais contido. O dele saiu como um espirro. Fujão e alto, mesmo sem som algum. Permaneceram ali de frente para a porta, um ao lado do outro, assistindo as paredes do túneis passando sem novidades. Ele imaginava o lugar ideal para a primeira vez dos dois. Tentavam não mover as cabeças, mas lançavam o máximo que um olhar diagonal pode alcançar. Qualquer um que os visse de frente pensaria que eram estrábicos. Com as vistas cansadas, passaram a se olhar através do reflexo da porta. Ela já imaginava se ele era do tipo que gosta de um bom vinho.

O trem parou e eles colocaram o pé direito na plataforma ao mesmo tempo. Fã de esportes que é, ele chegou a escutar os gritos da arquibancada, delirando com a harmonia da equipe. Pensou que o sexo também prometia ser bem sincronizado. Foram andando e tentando ficar lado a lado. Às vezes ela acelerava um pouco. Ele entendia que era um teste de persistência e acelerava até ultrapassá-la. E então diminuía pra ver se ela corresponderia. E ela acelerava até ultrapassá-lo. E assim percorreram a longa plataforma até a última escada de acesso à rua. Ela imaginando qual seria a banda preferida dele. Ele, a posição preferida dela. Na escada rolante ele não caminhou. Nem ela. Ficou parada, dois degraus abaixo dele. Não havia ninguém entre eles. Na verdade, não havia mais ninguém na estação.

A escada terminou e ele virou à direita. Já podia ver a porta. A saída. Seria o fim. Ou o começo?
Ele pensou em olhar pra trás. Desacelerou até que ela pudesse emparelhar-se. E então, percebeu que ela virou à esquerda. A última chance dele era olhar pra trás. Se ela olhasse, sim, iria falar com ela. Senão, pronto, aquela teria sido a história deles.
Mas o que ele falaria? E se ela fosse casada? E se ela fosse casta? E se tivesse voz fina demais? E se fosse bipolar por opção? E se pedisse pra ele parar de andar de skate?
Pensou isso tudo, mas olhou mesmo assim. E novamente, eles acertaram no segundo. Ela olhava. Ela pensava que ele poderia ser um tarado. Ou um carente, que se apaixona pela primeira que vê. Ou poderia morar com os pais. Ou ter um trabalho que exigisse demais. Ou não aceitar a carreira dela.

E quando cada um deles percebeu que a disposição de mudar suas vidas era pequena diante do momento, continuaram seguindo em frente, ainda que os caminhos fossem opostos. Naquele instante, o encontro já exigiria andar para trás. Perdeu a naturalidade. Foi o fim de uma relação intensa e sem briga alguma. Provavelmente, a melhor da vida deles.

ilustra de galvão em vidabesta.com