É uma forma de morte dentro da vida ter que aceitar uma vida que não é minha, que eu não quero, que eu não aguento.
Eu não sou de cristal, eu não preciso de alguém que me dê segurança. Eu preciso quebrar, reconstruir e quebrar de novo quantas vezes for necessário. Só assim posso ter a sensação de que eu sei exatamente quem eu sou e fiz exatamente o que deveria ter feito, e esse sentimento não tem preço.
quinta-feira, 24 de dezembro de 2009
quarta-feira, 23 de dezembro de 2009
segunda-feira, 26 de outubro de 2009
De que serve a bondade
1
De que serve a bondade
Se os bons são imediatamente liquidados,ou são liquidados
Aqueles para os quais eles são bons?
De que serve a liberdade
Se os livres têm que viver entre os não-livres?
De que serve a razão
Se somente a desrazão consegue o alimento de que todos necessitam?
2
Em vez de serem apenas bons,esforcem-se
Para criar um estado de coisas que torne possível a bondade
Ou melhor:que a torne supérflua!
Em vez de serem apenas livres,esforcem-se
Para criar um estado de coisas que liberte a todos
E também o amor à liberdade
Torne supérfluo!
Em vez de serem apenas razoáveis,esforcem-se
Para criar um estado de coisas que torne a desrazão de um indivíduo
Um mau negócio.
De que serve a bondade
Se os bons são imediatamente liquidados,ou são liquidados
Aqueles para os quais eles são bons?
De que serve a liberdade
Se os livres têm que viver entre os não-livres?
De que serve a razão
Se somente a desrazão consegue o alimento de que todos necessitam?
2
Em vez de serem apenas bons,esforcem-se
Para criar um estado de coisas que torne possível a bondade
Ou melhor:que a torne supérflua!
Em vez de serem apenas livres,esforcem-se
Para criar um estado de coisas que liberte a todos
E também o amor à liberdade
Torne supérfluo!
Em vez de serem apenas razoáveis,esforcem-se
Para criar um estado de coisas que torne a desrazão de um indivíduo
Um mau negócio.
terça-feira, 6 de outubro de 2009
E eu falei,

contra todas as granadas disparadas
Pela minha ansiedade, e a fragilidade e a insegurança
Sobre toda a vontade desenhada, pela minha intensidade
E a ingenuidade de uma criança
Que é você que eu quero, com você eu quero...
E eu farei, contra todas as risadas e a maldade
Que minha imbecilidade deixou margem pra desconfiança.
Contra todo o mau olhado e a inveja de quem não se basta, sobra na irrelevância
Pois é você que eu quero... pra você eu quero me entregar!
Assim, louca e apaixonada
Assim, extrovertida, tímida, quente, diferente, ardente, original.
E eu daria o conforto e a tranqüilidade
Que uma tarde ensolarada na cidade de São Paulo
Vem com importância o consolo dos meus ombros
Se as lágrimas molharem o seu rosto
Se é você que eu quero, Pois você consegue me acalmar.
domingo, 26 de julho de 2009
Pensamentos em pedaços.
Por que parei de falar com você? Estou fazendo isso para proteger você de mim. Claro que também tenho interesse nisso. Mas, confesse: não está melhor assim? Sem brigas, sem ironia, sem deboche, sem cobrança, sem expectativa, sem nada. Conforme eu falei, tudo vai morrer. Não vai sobrar nada. Não sei quando voltarei a falar novamente com você. Tenho ficado bem assim, não me sinto mais numa montanha russa emocional desde que tomei essa decisão. Não consigo dar conta de tanta intensidade. Você suga todas as energias que tenho. Você pesa. Mas ao mesmo tempo não tiro você da cabeça.
Já dei diferentes nomes para isso. Já chamei de vício, de amor, da coisa mais importante na minha vida. Mas o que é mesmo é impossível. Engraçado que ainda acredito que estando assim, longe, separada, sem falar com você, sem olhar você no olho, sem pegar na sua mão, sem ver você rindo pra mim, acho que estou fazendo bem a um possível futuro que possamos ter. Sei que é loucura. Não quero ficar culpando você o tempo todo. Não consigo aceitar essa perda, consegue entender isso? Se você deixasse de existir, fosse pra longe, se eu não tivesse que ver você tanto, acho que tudo seria mais fácil.
Você consentiu em terminar com um relacionamento de tanto tempo como se fôssemos simples namorados. É impossível não culpar você o tempo todo. Desde que paramos de nos falar, tenho sonhado todos os dias com você. Acho que é uma forma do meu inconsciente satisfazer uma vontade, aprendi isso na análise. Acordo e você é a primeira coisa em que penso. Consegue entender o peso disso? Sinceramente, não quero mais conviver com o seu mau humor, seus devaneios sem sentido, essa mania de ficar triste e odiar o mundo, toda essa maledicência, todo o deboche, a falta de humildade, a dificuldade em aceitar as coisas como são e fazer algo para mudá-las se tanto incomodam você. Mas claro, reclamar é mais fácil. E reclamar comigo era ainda melhor, porque eu estava ali, presente e ouvinte. Preciso me livrar da obsessão que é pensar em você. Em pensar o que você e sua namorada estão fazendo no sábado de manhã. Quero saber todos os detalhes, como ela se veste, se as calcinhas dela são velhas, são novas, são sensuais.
Não tenho limite. Penso toda hora em tudo isso. E quanto mais estamos próximos, mais quero saber de tudo. Seria capaz de passar um mês inteiro só fazendo perguntas a respeito de vocês dois. Já disse, é obsessão. Patologia. Totalmente obsceno. Sei que sou melhor que ela naquilo que você considera como valor. Aí vem a pergunta estúpida: então por que você está com ela e não comigo? Você é um idiota. Um fraco. Ou um grande mentiroso ao continuar dizendo que ainda me ama, que não existe ninguém como eu. Não percebe o quanto isso é pernicioso? Cada dia que consigo não falar com você é quase uma vitória pra mim. É como se eu tivesse me livrando de algo muito ruim e fazendo isso um dia de cada vez. Um alcoólatra largando o vício.
Não consigo ser sua amiga e achar tudo normal. Toda vez que vir você e ela juntos, vou sofrer e descontar em você. Sei que você não tem a menor vontade de me procurar. Você quer manter apenas um contato leve, cordial, mas onde eu não peça nada em troca. Isso não dá pra mim. Disse isso chorando pra você. Era uma grande carência. Não sei o que eu queria realmente, mas se sou viciada em você, não deveria me abster de repente, concorda? Queria apenas algumas horinhas de algo que fosse diferente da nossa rotina. E nada além de uma boa conversa. Mas talvez ainda tenha necessidade de despejar em você todas as porcarias que penso. Acho que você não passa por tantos conflitos quanto eu. Jamais vai se dar o trabalho de querer consertar alguma coisa. É covarde demais pra isso. Você não se move, não sai do lugar. É um merda.
Posso viver bem sem você, ora veja. Não preciso de você para comentar um filme ou me indicar um novo livro. Sei onde achar e com quem falar. Assim que essa dependência minha terminar, não vai sobrar nada. Vou estar livre. E nem de longe vou querer ver você. Você vai perder totalmente a graça. Provavelmente ainda continuarei achando você incrível, sensível, inteligente, genial. Mas nada vai me encantar. Vai haver uma ponta de desprezo no meu sentimento por você. Porque conheço todos os seus lados. Cada um deles. E seu lado bom não suplanta o lado ruim. Pelo contrário, submerge. Você não se esforça para ser melhor. Não sei o que você pretende. Mas tenho certeza que sabe o que jogou fora. Mas seria muito para você reconhecer tudo isso, não é? Idiota. Viu como você não se move? Fiquei aqui, disponível. Você foi embora. Você sabe que fez coisas difíceis de se perdoar. E não é porque gosto tanto de você que consigo passar por cima. Taí, não consigo.
Já dei diferentes nomes para isso. Já chamei de vício, de amor, da coisa mais importante na minha vida. Mas o que é mesmo é impossível. Engraçado que ainda acredito que estando assim, longe, separada, sem falar com você, sem olhar você no olho, sem pegar na sua mão, sem ver você rindo pra mim, acho que estou fazendo bem a um possível futuro que possamos ter. Sei que é loucura. Não quero ficar culpando você o tempo todo. Não consigo aceitar essa perda, consegue entender isso? Se você deixasse de existir, fosse pra longe, se eu não tivesse que ver você tanto, acho que tudo seria mais fácil.
Você consentiu em terminar com um relacionamento de tanto tempo como se fôssemos simples namorados. É impossível não culpar você o tempo todo. Desde que paramos de nos falar, tenho sonhado todos os dias com você. Acho que é uma forma do meu inconsciente satisfazer uma vontade, aprendi isso na análise. Acordo e você é a primeira coisa em que penso. Consegue entender o peso disso? Sinceramente, não quero mais conviver com o seu mau humor, seus devaneios sem sentido, essa mania de ficar triste e odiar o mundo, toda essa maledicência, todo o deboche, a falta de humildade, a dificuldade em aceitar as coisas como são e fazer algo para mudá-las se tanto incomodam você. Mas claro, reclamar é mais fácil. E reclamar comigo era ainda melhor, porque eu estava ali, presente e ouvinte. Preciso me livrar da obsessão que é pensar em você. Em pensar o que você e sua namorada estão fazendo no sábado de manhã. Quero saber todos os detalhes, como ela se veste, se as calcinhas dela são velhas, são novas, são sensuais.
Não tenho limite. Penso toda hora em tudo isso. E quanto mais estamos próximos, mais quero saber de tudo. Seria capaz de passar um mês inteiro só fazendo perguntas a respeito de vocês dois. Já disse, é obsessão. Patologia. Totalmente obsceno. Sei que sou melhor que ela naquilo que você considera como valor. Aí vem a pergunta estúpida: então por que você está com ela e não comigo? Você é um idiota. Um fraco. Ou um grande mentiroso ao continuar dizendo que ainda me ama, que não existe ninguém como eu. Não percebe o quanto isso é pernicioso? Cada dia que consigo não falar com você é quase uma vitória pra mim. É como se eu tivesse me livrando de algo muito ruim e fazendo isso um dia de cada vez. Um alcoólatra largando o vício.
Não consigo ser sua amiga e achar tudo normal. Toda vez que vir você e ela juntos, vou sofrer e descontar em você. Sei que você não tem a menor vontade de me procurar. Você quer manter apenas um contato leve, cordial, mas onde eu não peça nada em troca. Isso não dá pra mim. Disse isso chorando pra você. Era uma grande carência. Não sei o que eu queria realmente, mas se sou viciada em você, não deveria me abster de repente, concorda? Queria apenas algumas horinhas de algo que fosse diferente da nossa rotina. E nada além de uma boa conversa. Mas talvez ainda tenha necessidade de despejar em você todas as porcarias que penso. Acho que você não passa por tantos conflitos quanto eu. Jamais vai se dar o trabalho de querer consertar alguma coisa. É covarde demais pra isso. Você não se move, não sai do lugar. É um merda.
Posso viver bem sem você, ora veja. Não preciso de você para comentar um filme ou me indicar um novo livro. Sei onde achar e com quem falar. Assim que essa dependência minha terminar, não vai sobrar nada. Vou estar livre. E nem de longe vou querer ver você. Você vai perder totalmente a graça. Provavelmente ainda continuarei achando você incrível, sensível, inteligente, genial. Mas nada vai me encantar. Vai haver uma ponta de desprezo no meu sentimento por você. Porque conheço todos os seus lados. Cada um deles. E seu lado bom não suplanta o lado ruim. Pelo contrário, submerge. Você não se esforça para ser melhor. Não sei o que você pretende. Mas tenho certeza que sabe o que jogou fora. Mas seria muito para você reconhecer tudo isso, não é? Idiota. Viu como você não se move? Fiquei aqui, disponível. Você foi embora. Você sabe que fez coisas difíceis de se perdoar. E não é porque gosto tanto de você que consigo passar por cima. Taí, não consigo.
quinta-feira, 23 de julho de 2009
Hoje passei o dia olhando pra você. Mesmo nos momentos em que você não estava na minha frente. Construí cada pedaço seu, de dedo a umbigo, de nariz a tornozelo, de cabelo a panturrilha.
(...)
Profano, não. Ainda não cheguei lá. Sinto o amor romântico, apenas, com todos os sintomas: frio na barriga, tremor, vergonha e de repente fico muda. Seria melhor virar puta. É você passar pra eu esquecer todo o repertório que passei por horas, tudo some, os músculos se paralisam, parece que tenho 12 anos. Só com uma diferença: com 12 anos já teria ido até você e falado todas essas coisas. Entendeu por que seria melhor eu virar puta? Toda essa agonia iria acabar no primeiro motel vagabundo, na primeira luz de néon piscando na beira do asfalto.
Preciso dizer o quanto você me faz bem. Melhora o meu humor, me faz ter vontade de emagrecer, de passar sombra nos olhos, de comprar vestidos, de viajar. Me coloca sorriso nos lábios e acelera minha pulsação.
Vou amar você assim, sem ciúmes, sem cobranças, sem jogos, sem choro.
(...)
Profano, não. Ainda não cheguei lá. Sinto o amor romântico, apenas, com todos os sintomas: frio na barriga, tremor, vergonha e de repente fico muda. Seria melhor virar puta. É você passar pra eu esquecer todo o repertório que passei por horas, tudo some, os músculos se paralisam, parece que tenho 12 anos. Só com uma diferença: com 12 anos já teria ido até você e falado todas essas coisas. Entendeu por que seria melhor eu virar puta? Toda essa agonia iria acabar no primeiro motel vagabundo, na primeira luz de néon piscando na beira do asfalto.
Preciso dizer o quanto você me faz bem. Melhora o meu humor, me faz ter vontade de emagrecer, de passar sombra nos olhos, de comprar vestidos, de viajar. Me coloca sorriso nos lábios e acelera minha pulsação.
Vou amar você assim, sem ciúmes, sem cobranças, sem jogos, sem choro.
segunda-feira, 20 de julho de 2009
O que eu quero de você...
Quero escutar você falar do futuro e sonhar com minha imagem nele, mesmo sabendo que eu provavelmente não estarei lá. Quero que você ignore a improbabilidade da nossa jornada e fale da casa que teremos no campo. Quero que você a descreva em detalhes, que fale do jardim que construiremos, e dos cachorros que compraremos. E que faça tudo isso enquanto passa a mão nas minhas costas e me beija o rosto.
Quero que você nunca perca de vista a música da sua existência, e que me prometa ter entendido que a felicidade não é um destino, mas a viagem. E que, por isso, teremos sido felizes pelos vários domingos na cama e pelos sonhos que comparilhamos enquanto olhávamos a lua.
Que você acredite que não me deve nada simplesmente porque os amores mais puros não entendem dívida, nem mágoa, nem arrependimento.
Então, que não se arrependa. Da gente. Do que fomos. De tudo o que vivemos. Que você me guarde na memória, mais do que nas fotos. Que termine com a sensação de ter me degustado por completo, mas como quem sai da mesa antes da sobremesa: com a impressão que poderia ter se fartado um pouco mais.
E que, até o último dia da sua vida, você espalhe delicadamente a nossa história, para poucos ouvintes, como se ela tivesse sido a mais bela história de amor da sua vida. E que uma parte de você acredite que ela foi, de fato, a mais bela história de amor da sua vida.
Quero que você nunca perca de vista a música da sua existência, e que me prometa ter entendido que a felicidade não é um destino, mas a viagem. E que, por isso, teremos sido felizes pelos vários domingos na cama e pelos sonhos que comparilhamos enquanto olhávamos a lua.
Que você acredite que não me deve nada simplesmente porque os amores mais puros não entendem dívida, nem mágoa, nem arrependimento.
Então, que não se arrependa. Da gente. Do que fomos. De tudo o que vivemos. Que você me guarde na memória, mais do que nas fotos. Que termine com a sensação de ter me degustado por completo, mas como quem sai da mesa antes da sobremesa: com a impressão que poderia ter se fartado um pouco mais.
E que, até o último dia da sua vida, você espalhe delicadamente a nossa história, para poucos ouvintes, como se ela tivesse sido a mais bela história de amor da sua vida. E que uma parte de você acredite que ela foi, de fato, a mais bela história de amor da sua vida.
quarta-feira, 8 de julho de 2009
Episódio 1: Monologando
Ela, para ele:
"Eu falo sempre demais.
É uma pena que quase nunca venha uma resposta do outro lado.
Nem um ruidozinho, nem mesmo um eco, ou coisa do gênero.
É meio que um monólogo essa minha vida, mas eu sigo falando, é o que me resta."
Ele:
[…]
E voltaram cada um à sua vida.
"Eu falo sempre demais.
É uma pena que quase nunca venha uma resposta do outro lado.
Nem um ruidozinho, nem mesmo um eco, ou coisa do gênero.
É meio que um monólogo essa minha vida, mas eu sigo falando, é o que me resta."
Ele:
[…]
E voltaram cada um à sua vida.
sexta-feira, 3 de julho de 2009
Prefiro nada.
Isso não é uma carta de amor.
É a carta de quem nunca tentou.
De quem tem o que merece: a infelicidade
pedida à la carte, por livre e espontânea vontade.
De quem se alimenta de pequenas sensações voláteis.
Uma vida miserável que sente prazer na caça.
O vazio me move.
Assumo que não quis enxergar o quanto você era diferente.
Sabia, lá no fundo, que pessoas como você são raridade.
Mas deixei lá no fundo mesmo. Junto com minha coragem.
Preferi isso que tenho agora. Efemeridade, sentimentos ralos,
uma vida levada na superfície. Troquei você por sexo mais ou menos com um aqui outro ali, por aquele calor no peito que precede o primeiro beijo com alguém novo. Escolhi continuar procurando. Me dá mais prazer.
Nunca vai ser igual. Ninguém tem esse gosto, ninguém tem esse cheiro bem ali atrás da orelha, esse jeitinho de terminar um beijo.
Ninguém tem esse olhar que me frita, que me faz pensar em sexo quando estou cortando cebola. Ninguém tem essa voz que faz minhas pernas se abrirem automaticamente, ninguém arranca esses gritos, esses pedidos falsos para parar. Sou dobradiça frouxa com você.
Mas não posso trocar o mundo do maravilhoso desconhecido por nós.
Aliás, mal consigo falar nós. Preciso da adrenalina que alimenta os pobres de espírito.
Não é o momento. Já ouvi isso antes. Você é ótima, mas não estou pronto pra isso agora. Chegou minha vez de ser a idiota.
Abro mão de você, de todas as risadas que arranca de mim, de todas as possibilidades de um futuro feliz, pela busca.
Assumo o risco de me arrepender profundamente.
De um dia bater à sua porta e dar de cara com sua esposa perfeita, carregando um bebê-propaganda, em uma casa tinindo de limpa, cheirando a uma felicidade insuportável e inabalável. Diria que errei de número e perguntaria onde tem um bar.
Passaria o dia bebendo sozinha, esperando que você passasse só pra ter o prazer de me ver
conformada com a vida besta que escolhi e repetir baixinho que sabia que isso aconteceria.
Você mereceria se esbaldar com minha desgraça.
Sou uma imbecil, eu sei. Não estou preparada para tanto amor, para uma vida adulta. Você é demais. Certamente me faria crescer, arrumar um emprego melhor, vestir algo passado, comprar meias novas, freqüentar lugares onde os garçons são simpáticos.
Preciso de alguém pra quem possa apresentar Lynch, Sandman, Radiohead. Alguém mais cru. Alguém menos ameaçador à minha auto-estima.
Você me faz querer ser melhor. E eu não posso conviver com essa pressão.
É a carta de quem nunca tentou.
De quem tem o que merece: a infelicidade
pedida à la carte, por livre e espontânea vontade.
De quem se alimenta de pequenas sensações voláteis.
Uma vida miserável que sente prazer na caça.
O vazio me move.
Assumo que não quis enxergar o quanto você era diferente.
Sabia, lá no fundo, que pessoas como você são raridade.
Mas deixei lá no fundo mesmo. Junto com minha coragem.
Preferi isso que tenho agora. Efemeridade, sentimentos ralos,
uma vida levada na superfície. Troquei você por sexo mais ou menos com um aqui outro ali, por aquele calor no peito que precede o primeiro beijo com alguém novo. Escolhi continuar procurando. Me dá mais prazer.
Nunca vai ser igual. Ninguém tem esse gosto, ninguém tem esse cheiro bem ali atrás da orelha, esse jeitinho de terminar um beijo.
Ninguém tem esse olhar que me frita, que me faz pensar em sexo quando estou cortando cebola. Ninguém tem essa voz que faz minhas pernas se abrirem automaticamente, ninguém arranca esses gritos, esses pedidos falsos para parar. Sou dobradiça frouxa com você.
Mas não posso trocar o mundo do maravilhoso desconhecido por nós.
Aliás, mal consigo falar nós. Preciso da adrenalina que alimenta os pobres de espírito.
Não é o momento. Já ouvi isso antes. Você é ótima, mas não estou pronto pra isso agora. Chegou minha vez de ser a idiota.
Abro mão de você, de todas as risadas que arranca de mim, de todas as possibilidades de um futuro feliz, pela busca.
Assumo o risco de me arrepender profundamente.
De um dia bater à sua porta e dar de cara com sua esposa perfeita, carregando um bebê-propaganda, em uma casa tinindo de limpa, cheirando a uma felicidade insuportável e inabalável. Diria que errei de número e perguntaria onde tem um bar.
Passaria o dia bebendo sozinha, esperando que você passasse só pra ter o prazer de me ver
conformada com a vida besta que escolhi e repetir baixinho que sabia que isso aconteceria.
Você mereceria se esbaldar com minha desgraça.
Sou uma imbecil, eu sei. Não estou preparada para tanto amor, para uma vida adulta. Você é demais. Certamente me faria crescer, arrumar um emprego melhor, vestir algo passado, comprar meias novas, freqüentar lugares onde os garçons são simpáticos.
Preciso de alguém pra quem possa apresentar Lynch, Sandman, Radiohead. Alguém mais cru. Alguém menos ameaçador à minha auto-estima.
Você me faz querer ser melhor. E eu não posso conviver com essa pressão.
quarta-feira, 1 de julho de 2009
No fundo
Motivada pela tristeza e pela frase ouvida repetidas vezes, que se você está no fundo do poço não tem outro jeito a não ser começar a subir, resolveu que era hora de iniciar a escalada. Sabia que pela frente viriam paredes úmidas e fedidas. Quebraria algumas unhas, ralaria o joelho. Por isso ficou tanto tempo ali, encolhida no mundo que criou para se proteger. Porque não tinha forças para sentir mais nenhuma dor.Mas o tempo de permanecer assim acabou. A primeira atitude, nada mais clichê, foi marcar hora no salão para dar uma repicada no cabelo. Assim, pra ficar moderno. A bicha com quem costumava cortar às vezes acertava, às vezes não. Se estivesse cheirada, a franja ficaria muito repicada, com pontas incontáveis, totalmente sem jeito. Se a mona tivesse apenas fumado um, ótimo. Ia ganhar um corte mais ajeitado. Mas a vida é feita de riscos, leu isso num desses livros de empreendedorismo, achou bom lembrar agora.
O corte ficou...um corte. Nada além disso. O que lhe restava de bom senso foi atualizado no momento em que o secador de cabelos foi desligado. Ficou um bom corte, nada demais. Ela não sairia mais confiante do salão, sua auto-estima não estaria renovada e dentro de um dois meses a franja já estaria sem jeito.
O procedimento padrão também exigia a volta à academia. Se matriculou, comprou roupas novas, mas baratinhas – ainda não acreditava que iria mudar totalmente sua vida e se tornar a rainha da abdutora. Aliás, sabia que existia alguma coisa de auto-sabotagem nela. Alguém precisa ter pena de mim, afinal. Acreditava nisso piamente.
O próximo passo era organizar o orçamento, que estava tão bagunçado quanto as ideias dela. Quebrou alguns cartões de crédito, chorou de desespero, ficou meia hora no telefone aguardando ser atendida para negociar a dívida, combinaram que ela pagaria em 8 vezes, com juros de 1,4 % ao mês. Detestava fazer contas, por isso concordou rapidamente.
Agora era a vez do armário, gavetas, estantes. Não vou entrar em detalhes a respeito porque arrumar tudo isso é muito chato. Ela achava, eu acho, você provavelmente acha também. A única pessoa que gostou foi a Dinalva, que levou uma sacola cheia de roupas e sapatos e brincos e cintos e bolsas pra casa.
Sim, o fim de um namoro provoca uma grande revolução na vida da gente. De certa forma, é uma ignição para um novo momento, às vezes melhor que o anterior. E pra finalizar toda essa etapa de mudança, resolveu que iria melhorar a pele, tratar as manchas, desmanchar algumas rugas, enfim, ficar mais bonita.
Marcou com a doutora Vanessa Eller às 15h40. Foi difícil sair do trabalho a essa hora. Mas era agora ou só daqui a quatro meses, querida, informou a secretária com voz anasalada. Chegou três minutos atrasada e ficou com raiva da sua falta de pontualidade, mais uma vez. Sentou, entregou a carteirinha do plano, tentou respirar para disfarçar o afobamento, pediu água e aguardou ser chamada. Começou a reparar na decoração. Tons rosas e lilases. Uma parede branca com texturas muito discretas e com vincos em baixo relevo que se cruzavam formando quadrados. Em cada ponta dos quadrados, alguma coisa brilhava. Quis levantar para olhar de perto que diabos era aquilo imitando um diamante mas se conteve.
- Flávia Damasceno!
Ela se levantou, pegou a bolsa e deu cinco passos antes de chegar na porta da sala e dar de cara com a doutora reluzente. O chão se abriu. Ela sentiu uma leve palpitação. A câmera lenta foi ativada. Ela reparou em cada detalhe daquela entidade luminosa, shinning happy person à sua frente. Cabelos num tom loiro que nunca tinha visto antes, a tintura devia ser importada. Os olhos cuidadosamente maquiados, nem um excesso de rímel, os cílios pareciam colados um a um. A pele lisa, irritantemente lisa. O corpo exato, magra sem deixar de ser gostosa. A roupa, que não era branca, era off-white. Usava joias discretas, com quartzo transparente e ouro branco, uma finura. Atrás dela, as fotos da vida perfeita: um bonito marido beijando-a no dia do casamento, a filha de poucos meses, linda, rosada, risonha, perfeita, no porta-retrato provençal. Teve vontade de desmaiar, de ver se não tinha resto de comida no dente, ficou com vergonha da pele que há tempos não via uma limpeza. E foi a primeira coisa que o ser de luz reparou.
- Antes de tudo, precisamos fazer uma limpezinha nessa pele, Flávia.
Não, não. E ainda por cima essa voz em tom baixo, calmo, embalante. Lembrou que todas as dermatologistas que conheceu falavam assim, baixinho, com delicadeza, com palavras doces que só faziam com que ela ficasse ainda mais arrasada. Jamais seria tão linda, leve e iluminada. Jamais.
Pegou a receita, deu um sorriso amarelo misturado com um muito obrigado, prometeu o impossível, que voltaria em dois meses, que faria a tal limpeza, que passaria o ácido todas as noites. Saiu do consultório e foi direto para o poço novamente.
segunda-feira, 8 de junho de 2009
What intentions?
These imperfections make it hurt
And you're far away now but I know you're coming home
This is out of control
We can't make it on our own
We keep playing along just to leave us more alone
This is out of control
This happy ending's getting old
But we're playing along
With intentions
What intentions?
And you're far away now but I know you're coming home
This is out of control
We can't make it on our own
We keep playing along just to leave us more alone
This is out of control
This happy ending's getting old
But we're playing along
With intentions
What intentions?
sexta-feira, 29 de maio de 2009

E por anos eu vivi procurando um sentido. Fui aquela que sempre acreditou na existência de explicações, motivos e significados únicos. Ou era, ou não era.
Foi devido ao fato de minhas experiências raramente terem apresentado algum sentido, que eu acabei me cansando. Procurei entender muita coisa, não entendi quase nada. Desisti das justificativas. Comecei a viver medos.
Vivi cada uma das minhas histórias como se fossem peças que não se encaixam, peças que nunca se interligariam. Apaguei de mim tantas das coisas que não possuíram significado e me esqueci de perceber que a visão do outro lado tem a memória menos compreensiva e mais cruel do que a minha.
Eu não gosto de pensamentos pré-prontos, eu não gosto do livre arbítrio alheio, eu não gosto de quem acha que faz sentido. Eu só gosto de pouca gente.
sexta-feira, 22 de maio de 2009
eu quero mais abraços...
Quero não ter nenhuma condescendência com o tédio, não ser forçada a aceitá-lo na minha rotina como um inquilino inevitável. A cada manhã, exijo ao menos a expectativa de uma surpresa, quer ela aconteça ou não. Expectativa, por si só, já é um entusiasmo.
Quero uma primeira vez outra vez. Um primeiro beijo em alguém que ainda não conheço, uma primeira caminhada por uma nova cidade, uma primeira estréia em algo que nunca fiz, quero seguir desfazendo as virgindades que ainda carrego, quero ter sensações inéditas até o fim dos meus dias.
Gostaria de me reconciliar com meus defeitos e fraquezas, arejar minha biografia, deixar que vazem algumas idéias minhas que não são muito abençoáveis.
E na minha insignificância, deixar de ser tão misteriosa pra mim mesma, me conectar com as minhas outras possibilidades de existir. O que eu quero mais? Me escutar e obedecer o meu lado mais transgressor, menos comportadinho, menos refém de reuniões familiares, bolos de aniversário e despertadores na segunda-feira de manhã. E também quero mais tempo livre. E mais abraços.
Quero uma primeira vez outra vez. Um primeiro beijo em alguém que ainda não conheço, uma primeira caminhada por uma nova cidade, uma primeira estréia em algo que nunca fiz, quero seguir desfazendo as virgindades que ainda carrego, quero ter sensações inéditas até o fim dos meus dias.
Gostaria de me reconciliar com meus defeitos e fraquezas, arejar minha biografia, deixar que vazem algumas idéias minhas que não são muito abençoáveis.
E na minha insignificância, deixar de ser tão misteriosa pra mim mesma, me conectar com as minhas outras possibilidades de existir. O que eu quero mais? Me escutar e obedecer o meu lado mais transgressor, menos comportadinho, menos refém de reuniões familiares, bolos de aniversário e despertadores na segunda-feira de manhã. E também quero mais tempo livre. E mais abraços.
quinta-feira, 21 de maio de 2009
sexta-feira, 15 de maio de 2009
...
Então não vá embora, diga o que disser. Mas diga que você ficará... para sempre e mais um dia, durante meu tempo de vida.
Pois eu preciso de mais tempo, eu preciso de mais tempo simplesmente para acertar as coisas.
Dane-se minha situação e os jogos que eu tenho de jogar com todas as coisas presas a minha mente. Droga de educação, eu não consigo achar as palavras certas sobre as coisas presas na minha mente.
Eu e você... o que está acontecendo? Tudo que parecemos saber é como mostrar os sentimentos que estão errados...
Pois eu preciso de mais tempo, eu preciso de mais tempo simplesmente para acertar as coisas.
Dane-se minha situação e os jogos que eu tenho de jogar com todas as coisas presas a minha mente. Droga de educação, eu não consigo achar as palavras certas sobre as coisas presas na minha mente.
Eu e você... o que está acontecendo? Tudo que parecemos saber é como mostrar os sentimentos que estão errados...
quarta-feira, 13 de maio de 2009
WARNING!

When I am an old woman, I shall wear purple with a red hat which doesn’t go, and doesn’t suit me.
And I shall spend my pension on brandy and summer gloves and satin sandles, and say we’ve no money for butter.
I shall sit down on the pavement when I’m tired and gobble up samples in shops and press alarm bells and run with my stick along public railings, and make up for the sobriety of my youth.
I shall go out in my slippers in the rain and pick flowers in other people’s gardens and learn to spit!
You can wear terrible shirts and grow more fat and eat three pounds of sausages at ago, or only bread and pickles for a week.
And hoard pens and pencils and beermats and things in boxes.
But now we must have clothes that keep us dry, and pay our rent and not swear in the street, and set a good example for the children. We must have friends to dinner and read the papers.
But maybe I ought to practice a little now?
So people who know me are not too shocked and surprised when suddenly I am old, and start to wear purple!
(Jenny Joseph)
sábado, 9 de maio de 2009
the days...

Eu não sei bem o que é. Mas traz uma saudade imensa do ontem e - principalmente - do agora. Traz também um aglomerado de pensamentos desconexos que vêm e vão como se fossem originados de uma insanidade absoluta. E o esquisito é que eu nunca estive tão lúcida.
Lembranças de dias e noites desfilam uma a uma com a duração de milésimos de segundo. Flashes que me (re)apresentam uma série de personagens -coadjuvantes, principais, figurantes - já vistos e conhecidos. Se fosse possível definir uma imagem pro passado ou presente, essa imagem seria um rosto. Feições e detalhes que nunca se apagam, porque elas foram decoradas espontaneamente.
Passado e presente não se excluem, nem substituem-se, eles simplesmente coexistem. Isso se explica justamente porque nada é absolutamente igual. Pelo contrário, lidamos com experiências diferentes todos os dias. Nada repercute exatamente como foi. Os dias passam rápido demais e nem nós mesmos conseguimos nos repetir. A gente já passou. Somos outros, aprendemos, mudamos e vamos mudar mais.
Ainda bem.
terça-feira, 21 de abril de 2009
Novo. De novo.
Acontece, meu bem, que nem só porque a luz se apagou a gente perde a capacidade de enxergar. Não é assim? No começo o olho cega, mas depois todo um mecanismo te ajuda a ver de novo, gradativamente, mesmo sem iluminação. A visão acostuma. Até o momento em que outra luz se acenda e a perfeita definição das coisas retorne. E aí talvez essas mesmas coisas nunca mais pareçam o que eram antes. Talvez elas realmente nem sejam mais o que eram antes. Todos nós mudamos nossa percepção uns dos outros. É fatal.
Muitas vezes o medo de não saber ser outra coisa além do que se era é absurdo. Muitas vezes o medo de não saber um monte de outras coisas também, de não poder prever. É isso que eu vejo nas pessoas e em mim mesma: um medo absurdo. Só que quando não estamos mais satisfeitos com os efeitos que provocamos ou com as coisas que (não) fizemos, talvez seja a hora de encarar fantasmas, destruí-los e começar mais uma vez. É bom dar uma chance pra si mesmo, acreditar de novo, modificar o que sobrou. Do pedaço formar um todo. A sensação é incrível, pra não dizer quase sobrenatural. É exagerada, sim, porque não é pouca.
Quantas vezes será que seremos capazes de recomeçar?
Eu quero tudo de novo. Novo. De novo.
E não quero nada menos do que muito.
Muita coisa eu ainda não encontrei nem vi. Embora já tenha procurado e visto muita coisa.
Muitas vezes o medo de não saber ser outra coisa além do que se era é absurdo. Muitas vezes o medo de não saber um monte de outras coisas também, de não poder prever. É isso que eu vejo nas pessoas e em mim mesma: um medo absurdo. Só que quando não estamos mais satisfeitos com os efeitos que provocamos ou com as coisas que (não) fizemos, talvez seja a hora de encarar fantasmas, destruí-los e começar mais uma vez. É bom dar uma chance pra si mesmo, acreditar de novo, modificar o que sobrou. Do pedaço formar um todo. A sensação é incrível, pra não dizer quase sobrenatural. É exagerada, sim, porque não é pouca.
Quantas vezes será que seremos capazes de recomeçar?
Eu quero tudo de novo. Novo. De novo.
E não quero nada menos do que muito.
Muita coisa eu ainda não encontrei nem vi. Embora já tenha procurado e visto muita coisa.
sábado, 11 de abril de 2009
não fica, não marca...

E acontece que eu ainda sou babaca, pateta e ridícula o suficiente para estar procurando O verdadeiro amor. Pára de rir, senão te jogo já este copo na cara. Pago o copo, a bebida. Pago o estrago e até o bar, se ficar a fim de quebrar tudo.
Tenho, claro. Ficou nervosinho, quer cigarro? Mas nem fumar você fuma, o quê? Compreendo, compreendo sim, eu compreendo sempre, sou uma mulher muito compreensiva. Sou tão maravilhosamente compreensiva e tudo que, se levar você pra minha cama agora e amanhã de manhã você tiver me roubado toda a grana, não pense que vou achar você um filho da puta. Não é o máximo da compreensão?
Fissura, estou ficando tonta. Essa roda girando girando sem parar. Olha bem: quem roda nela? As mocinhas que querem casar, os mocinhos a fim de grana pra comprar um carro, os executivozinhos a fim de poder e dólares, os casais de saco cheio um do outro. Estar fora da roda é não querer nada. Feito eu: não quero ninguém deles. Nem você.
Mas eu quero mais é aquilo que não posso comprar. Nem é você que eu espero, já te falei. Aquele um vai entrar um dia talvez por essa mesma porta, sem avisar. Diferente dessa gente toda vestida de preto, com cabelo arrepiadinho. Se quiser eu piro, e imagino ele de capa de gabardine, chapéu molhado, barba de dois dias, cigarro no canto da boca, bem noir. Mas isso é filme, ele não. Ele é de um jeito que ainda não sei, porque nem vi. Vai olhar direto para mim. Ele vai sentar na minha mesa, me olhar no olho, pegar na minha mão e dizer: vem comigo. É por ele que eu venho aqui, quase toda noite. Não por você, por outros como você.
Ria de mim, mas estou aqui parada, bêbada, pateta e ridícula, só porque no meio desse lixo todo procuro o verdadeiro amor. Cuidado comigo: um dia encontro.
Só por ele, por esse que ainda não veio, te deixo aqui. Está quase amanhecendo. As damas da noite recolhem seu perfume com a luz do dia. Na sombra, sozinhas. Envenenam a si próprias com fantasias. Divida essa sua juventude estúpida com a gatinha ali do lado, meu bem. Eu vou embora sozinha. Eu tenho um sonho, eu tenho um destino, e se bater o carro e arrebentar a cara toda saindo daqui, continua tudo certo. Fora da roda. Parada pateta ridícula venenosa. Pós-tudo, sabe como? Darkérrima, modernésima, puro simulacro.
Você é tão inocente, tão idiotinha com essa camisetinha Mr. Wonderful. Inocente porque nem sabe que é inocente. Mas tem umas coisas que a gente vai deixando, vai deixando, vai deixando de ser e nem percebe. Quando viu, já não é mais. Sabia? Sabe nada: você roda na roda também, quer uma prova? Todo esse pessoal de preto e cabelo arrepiadinho sorri pra você porque você é igual a eles. Se pintar uma festa, te dão um toque, mesmo sem te conhecer. Isso é rodar na roda, meu bem. Porque o rodar dela é o rodar de quem consegue fingir que não viu o que viu.
O que importa é que você entra por um ouvido meu e sai pelo outro, sabia? Você não fica. Você não marca.
C.F.A.
sexta-feira, 3 de abril de 2009
O dia que Júpter encontrou Saturno
Foi a primeira pessoa que viu quando entrou. Tão bonito que ela baixou os olhos, sem querer querendo que ele também a tivesse visto. Deram-lhe um copo de plástico com vodka, gelo e uma casquinha de limão. Ela triturou a casquinha entre os dentes, mexendo o gelo com a ponta do indicador, sem beber. Com a movimentação dos outros, levantando o tempo todo para dançar rocks barulhentos ou afundar nos quartos onde rolavam carreiras e baseados, devagarinho conquistou uma cadeira de junco junto a janela. A noite clara lá fora estendida sobre Henrique Schaumann, a avenida poncho & conga, riu sozinha. Ria sozinha quase o tempo todo, uma moça magra querendo controlar a própria loucura, discretamente infeliz. Molhou os lábios na vodka tomando coragem de olhar para ele, um moço queimado de sol e calças brancas com a barra descosturada. Baixou outra vez os olhos, embora morena também, e suspirou soltando os ombros, coluna amoldando-se ao junco da cadeira. Só porque era sábado e não ficaria, desta vez não, parada entre o som, a televisão e o livro, atenta ao telefone silencioso. Sorriu olhando em volta, muito bem, parabéns, aqui estamos. Não que estivesse triste, só não sentia mais nada. Levemente, para não chamar atenção de ninguém, girou o busto sobre a cintura, apoiando o cotovelo direito sobre o peitoril da janela. Debruçou o rosto na palma da mão, os cabelos lisos caíram sobre o rosto. Para afastá-los, ela levantou a cabeça, e então viu o céu tão claro que não era o céu normal de Sampa, com uma lua quase cheia e Júpiter e Saturno muito próximos. Vista assim parecia não uma moça vivendo, mas pintada em aquarela, estatizada feito estivesse muito calma, e até estava, só não sentia mais nada, fazia tempo. Quem sabe porque não evidenciava nenhum risco parada assim, meio remota, o moço das calças brancas veio se aproximando sem que ela percebesse.Parado ao lado dela, vistos de dentro, os dois pintados em aquarela - mas vistos de fora, das janelas dos carros procurando bares na avenida, sombras chinesas recortadas contra a luz vermelha.E de repente o rock barulhento parou e a voz de John Lennon cantou every daY, every way is getting better and better. Na cabeça dela soaram cinco tiros. Os olhos subitamente endurecidos da moça voltaram-se para dentro, esbarrando nos olhos subitamente endurecidos dos moço. As memórias que cada um guardava, e eram tantas, transpareceram tão nitidamente nos olhos que ela imediatamente entendeu quando ele a tocou no ombro.
-Você gosta de estrelas?
-Gosto. Você também?
-Também. Você está olhando a lua?
-Quase cheia. Em Virgem.
-Amanhã faz conjunção com Júpiter.
-Com Saturno também.
-Isso é bom?
-Eu não sei. Deve ser.
-É sim. Bom encontrar você.
-Também acho.
(Silêncio)
-Você gosta de Júpiter?
-Gosto. Na verdade "desejaria viver em Júpiter onde as almas são puras e a transa é outra".
-Que é isso?
-Um poema de um menino que vai morrer.
-Como é que você sabe?
-Em fevereiro, ele vai se matar em fevereiro.
(Silêncio)
-Você tem um cigarro?
-Estou tentando parar de fumar.
-Eu também. Mas queria uma coisa nas mãos agora.
-Você tem uma coisa nas mãos agora.
-Eu?
-Eu.
(Silêncio)
-Como é que você sabe?
-O quê?
-Que o menino vai se matar.
-Sei de muitas coisas. Algumas nem aconteceram ainda.
-Eu não sei nada.
-Te ensino a saber, não a sentir. Não sinto nada, já faz tempo.
-Eu só sinto, mas não sei o que sinto. Quando sei, não compreendo.
-Ninguém compreende.
-Às vezes sim. Eu te ensino.
-Difícil, morri em dezembro. Com cinco tiros nas costas. Você também.
-Também, depois saí do corpo. Você já saiu do corpo?
(Silêncio)
-Acho que estou voltando. Usava saias coloridas, flores nos cabelos.
-Minha trança chegava até a cintura. As pulseiras cobriam os braços.
-Alguma coisa se perdeu.
-Onde fomos? Onde ficamos?
-Alguma coisa se encontrou.
-E aqueles guizos?
-E aquelas fitas?
-O sol já foi embora.
-A estrada escureceu.
-Mas navegamos.
-Sim. Onde está o Norte?
-Localiza o Cruzeiro do Sul. Depois caminha na direção oposta.
(Silêncio)
-Você é de Virgem?
-Sou. E você, de Capricórnio?
-Sou. Eu sabia.
-Combinamos: terra.
-Sim. Combinamos.
(Silêncio)
-Amanhã vou embora para Paris.
-Amanhã vou embora para Natal.
-Eu te mando um cartão de lá.
-Eu te mando um cartão de lá.
-No meu cartão vai ter uma pedra suspensa sobre o mar.
-No meu não vai ter pedra, só mar. E uma palmeira debruçada.
(Silêncio)
-Vou tomar chá de ayahuasca e ver você egípcia. Parada do meu lado, olhando de perfil.
-Vou tomar chá de datura e ver você tuaregue. Perdido no deserto, ofuscado pelo sol.
-Vamos nos ver?
-No teu chá. No meu chá.
(Silêncio)
-Quando a noite chegar cedo e a neve cobrir as ruas, ficarei o dia inteiro na cama pensando em dormir com você.
-Quando estiver muito quente, me dará uma moleza de balançar devagarinho na rede pensando em dormir com você.
-Vou te escrever carta e não te mandar.
-Vou tentar recompor teu rosto sem conseguir.
-Vou ver Júpiter e me lembrar de você.
-Vou ver Saturno e me lembrar de você.
-Daqui a vinte anos voltarão a se encontrar.
-O tempo não existe.
-O tempo existe, sim, e devora.
-Vou procurar teu cheiro no corpo de outra mulher. Sem encontrar, porque terei esquecido. Alfazema?
-Alecrim. Quando eu olhar a noite enorme do Equador, pensarei se tudo isso foi um encontro ou uma despedida.
-E que uma palavra ou um gesto, seu ou meu, seria suficiente para modificar nossos roteiros.
(Silêncio)
-Mas não seria natural.
-Natural é as pessoas se encontrarem e se perderem.
- Natural é encontrar. Natural é perder.
-Linhas paralelas se encontram no infinito.
-O infinito não acaba. O infinito é nunca.
-Ou sempre.
(Silêncio)
-Tudo isso é muito abstrato. Está tocando "Kiss, kiss, kiss". Por que você não me convida para dormirmos juntos.
-Você quer dormir comigo?
-Não.
-Porque não é preciso?
-Porque não é preciso.
(Silêncio)
-Me beija.
-Te beijo.
Foi a última pessoa que viu ao sair. Tão bonita que ele baixou os olhos, sem saber sabendo que ela também o tinha visto. Desceu pelo elevador, a chave do carro na mão. Rodou a chave entre os dedos, depois mordeu leve a ponta metálica, amarga. Os olhos fixos nos andares que passavam, sem prestar atenção nos outros que assuavam narizes ou pingavam colírios. Devagarinho conquistou o espaço junto à porta. Os ruídos coados de festas e comandos da madrugada nos outros apartamentos, festas pelas frestas, riu sozinho. Ria sozinho quase sempre, um moço queimado de sol, com a barra branca das calças descosturadas, querendo controlar a própria loucura, discretamente infeliz. Mordeu a unha junto com a chave, lembrando dela, uma moça magra de cabelos lisos junto à janela. Baixou outra vez os olhos, embora magro também. E suspirou soltando os ombros, pés inseguros comprimindo o piso instável do elevador. Só porque era sábado, porque estava indo embora, porque as malas restavam sem fazer e o telefone tocava sem parar. Sorriu olhando em volta.Não que estivesse triste, só não compreendia o que estava sentindo.Levemente, para não chamar a atenção de ninguém, apertou os dedos da mão direita na porta aberta do elevador e atravessou o saguão de lado, saindo para a rua. Apoiou-se no poste da esquina, o vento esvoaçando os cabelos, e para evitá-lo ele então levantou a cabeça e viu o céu. Um céu tão claro que não era o céu normal de Sampa, com uma lua quase cheia e Júpiter e Saturno muito próximos. Visto assim parecia não um moço vivendo, mas pintado num óleo de Gregório Gruber, tão nítido estava ressaltado contra o fundo da avenida, e assim estava, mas sem compreender, fazia tempo. Quem sabe porque não evidenciava nenhum risco, a moça debruçou-se na janela lá em cima e gritou alguma coisa que ele não chegou a ouvir. Parado longe dela, a moça visível apenas da cintura para cima parecia um fantoche de luva, manipulado por alguém escondido, o moço no poste agitando a cabeça, uma marionete de fios, manipulada por alguém escondido. De repente um carro freou atrás dele, o rádio gritando "se Deus quiser, um dia acabo voando". Na cabeça dele soaram cinco tiros. De onde estava, não conseguiria ver os olhos da moça. De onde estava, a moça não conseguiria ver os olhos dele. Mas as memórias de cada um eram tantas que ela imediatamente entendeu e aceitou, desaparecendo da janela no exato instante em que ele atravessou a avenida sem olhar para trás.
quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009
ficar, ir...
Era como se nos tornássemos doentes. Ambos vivendo em delírio racional. Precisava existir algo que organizasse toda a desordem causada, uma cura que só um de nós achou.
Só que um foi. E outro ficou.
Sobraram tantos restos, tantos pedaços, tantos flashes do abismo que eu só soube encontrar no teu olho. Um abismo do qual eu nunca soube voltar e que me fez continuar doente, onde tudo beira o delírio, onde tudo é subterrâneo, onde toda a água queima e todo o fogo afoga.
E - pra não perder o costume - se perguntarem, eu nego. Eu sempre acreditei em exorcismo de emoções, sempre acreditei na resistência à tudo o que não é racional. Mesmo que exista um longo caminho e que "fingir que está tudo bem" faça(temporariamente) parte,
eu também quero cura.
Só que um foi. E outro ficou.
Sobraram tantos restos, tantos pedaços, tantos flashes do abismo que eu só soube encontrar no teu olho. Um abismo do qual eu nunca soube voltar e que me fez continuar doente, onde tudo beira o delírio, onde tudo é subterrâneo, onde toda a água queima e todo o fogo afoga.
E - pra não perder o costume - se perguntarem, eu nego. Eu sempre acreditei em exorcismo de emoções, sempre acreditei na resistência à tudo o que não é racional. Mesmo que exista um longo caminho e que "fingir que está tudo bem" faça(temporariamente) parte,
eu também quero cura.
segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009
galas da mentira
Há tantos sentimentos e eu tenho que sentir exatamente este!
A vida, realmente, não é justa... pelo menos comigo!
" É lágrima de cinema, é tapeação, é mentira, CAI FORA "
A vida, realmente, não é justa... pelo menos comigo!
" É lágrima de cinema, é tapeação, é mentira, CAI FORA "
quinta-feira, 29 de janeiro de 2009
Mas...
Incondicionalmente. Mesmo que ele tenha milhões de defeitos, que cometa deslizes bizarros e te faça sentir vergonha de algumas situações em público.
O que importa? Não adianta mentir que você não gosta. Admita: você acha lindo vocês serem tão desajeitadamente compatíveis, ama o jeito que ele finge que não está te olhando, suspira discretamente quando ele mexe o cabelo, se sente bem quando ele te dá a mão e quando te abraça e quando te beija e quando te olha e quando te faz se sentir assim, extremamente sem rumo. E ridícula.
Mas tanto faz.
O que importa? Não adianta mentir que você não gosta. Admita: você acha lindo vocês serem tão desajeitadamente compatíveis, ama o jeito que ele finge que não está te olhando, suspira discretamente quando ele mexe o cabelo, se sente bem quando ele te dá a mão e quando te abraça e quando te beija e quando te olha e quando te faz se sentir assim, extremamente sem rumo. E ridícula.
Mas tanto faz.
segunda-feira, 26 de janeiro de 2009
You only live once

Mais uma vez - a certeza de que sentir alguma coisa, boa ou ruim, é melhor do que sentir um nada.
Nada. Por nada. Por ninguém. É assim que eu me encontro, é assim que eu me torno momentaneamente vazia. E eu sei que esse vazio é de falta. Não a falta de quem já foi, mas a falta de quem ainda não veio.
Músicas lentas já não reviram meu estômago, a saudade passou a não existir. Não sei mais me sentir ridiculamente perdida, não sei mais rir de mim mesma ao me flagrar pensando alto e falando sozinha. Não sei mais.
Não suporto o cotidiano racional por muito tempo. Chato, sem graça e inútil. Mesmo assim, a gente continua. Até o momento em que a gente para e diz: pronto! É ele.
Cadê?
Eu não tenho pressa. Mas, afinal, you only live once.
" Lembra o tempo que você sentia e sentir era a forma mais sábia de saber e você nem sabia? "
quinta-feira, 22 de janeiro de 2009
Só preciso conseguir entender algumas coisas.
Acabei de ver uma entrevista com uma escritora na tv e me chamou bastante atenção... Ela dizia que, nós mulheres, fomos feitas para amar.
Tá, mais calma... desde que eu me conheço por gente, amar é uma coisa que a gente sente, e pra mim tanto faz qual seria esse tal sentimento, a questão é que fomos criadas pra sentir demais, desejar demais.
Tudo o que um milhão de homens não sentem, uma só mulher consegue sentir.
Sentir ódio, amor, rancor, felicidade, raiva, paixão, tristeza... ou desejar ter uma casa, ter mais amigos, um notebook, uma câmera nova ou até mesmo um namorado perfeito.
Ok, ok, ok... Isso seria completamente normal, se não fosse TUDO AO MESMO TEMPO. E esse é o maior problema de todos! Por sentir muito e querer demais, a gente fica descabelada por as vezes não dar certo. Por não conseguir alcançar todas as nossas expectativas.
E acho que é por isso que no momento estou me sentindo muito mais mulher.
Pelo simples fato de sentir e querer muito.
Tá, mais calma... desde que eu me conheço por gente, amar é uma coisa que a gente sente, e pra mim tanto faz qual seria esse tal sentimento, a questão é que fomos criadas pra sentir demais, desejar demais.
Tudo o que um milhão de homens não sentem, uma só mulher consegue sentir.
Sentir ódio, amor, rancor, felicidade, raiva, paixão, tristeza... ou desejar ter uma casa, ter mais amigos, um notebook, uma câmera nova ou até mesmo um namorado perfeito.
Ok, ok, ok... Isso seria completamente normal, se não fosse TUDO AO MESMO TEMPO. E esse é o maior problema de todos! Por sentir muito e querer demais, a gente fica descabelada por as vezes não dar certo. Por não conseguir alcançar todas as nossas expectativas.
E acho que é por isso que no momento estou me sentindo muito mais mulher.
Pelo simples fato de sentir e querer muito.
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